Meus amigos leitores do Tau Francisco, eu gostaria de retomar essa coluna com uma reflexão que é também um testemunho.
No Dia de Todos os Santos, Frei Marcelo falou sobre a santidade na homilia da missa de 12h15 do nosso Santuário de São Francisco de Assis. Uma reflexão interessante e propícia, sobretudo para mim. Explico…
Havia há anos uma pessoa na Igreja que me chamava de “meu santo”. Era “bom dia, meu santo!”, “como vai, meu santo?”… Isso me incomodava profundamente, porque eu sei do meu pecado, e cada “meu santo” que eu ouvia da boca desse meu amigo era como um espinho entrando na minha alma para me lembrar que de santo eu não tinha nada.
Mais ou menos por essa época eu tomei uma atitude que teve como uma das conseqüências o fim de um coral de que eu fazia parte. Conversando sobre isso com uma amiga, ela me disse: “Fabão, eu conheço você há anos e sei que você não tem maldade no coração. Sei que você não queria nada disso”. Mais uma vez minha alma se contorceu em dor, porque eu conhecia a maldade que havia no meu coração.
Essa postura acontecia porque eu tinha uma mentalidade de barganha com Deus. Eu pensava “vou jejuar para que Deus me perdoe”, “vou rezar para que Deus me santifique”, “vou fazer algo para que Deus faça algo por mim”. Eu não entendia verdadeiramente a gratuidade do amor de Deus. Eu não tinha a menor idéia de que a minha santidade ou o meu pecado dependiam mais das minhas intenções e da minha vontade que dos meus atos.
Eu estava preso numa “pragmática da salvação” e negociava com Deus. Eu tinha um pensamento de fariseu, porque eu achava que o cumprimento da vontade de Deus se limitava à lei, à prática. Tenho certeza que, se eu enxergasse o que havia de bom em mim, eu me tornaria fariseu por completo.
Conforme o tempo foi passando, e fui aprendendo um pouco mais sobre o nosso Deus e buscando viver mais a fé, fui entendendo que essa minha cobrança não faz o menor sentido. Claro que não sou perfeito, claro que não sou perfeitamente puro de coração. É claro que eu peco. Mas o mais importante eu tenho: eu quero ser santo, eu quero que meu coração seja purificado.
Só que anos de cobrança não vão embora de repente. Anos de uma postura psicológica e espiritualmente nociva não se transformam de uma hora para outra em profunda serenidade e paz de espírito.
Por isso, foi importantíssimo (para mim, repito) ouvir o Frei Marcelo dizendo que a santidade está na vivência da própria vocação. Se eu sou casado, cuidar da minha esposa e cuidar dos filhos que um dia, se Deus quiser, teremos já é abraçar essa proposta de vida de santidade, já é um ato de santificação. A grande diferença está em não fazer isso por obrigação, mesmo que a promessa que fiz pelo Matrimônio me obrigue a essas coisas, mas por amor.
Hoje não vejo Deus como um operador de caixa registradora, registrando pecados e atos de caridade, vícios e virtudes, para cobrar o preço adequado. Hoje eu sei que o que tenho de bom é graça de Deus, e sei que meus atos em si não vão me santificar ou me condenar, mas esses atos, associados à intenção com que os executo, e ás circunstâncias, poderão se tornar canal da Graça de Deus para mim e para os outros, ou poderão fechar meu coração para a ação do Espírito Santo.
Hoje eu abraço minha vocação como Cristo abraçou a Cruz, ou seja, não vejo os deveres inerentes ao Matrimônio como uma obrigação, mas como obra e graça de Deus na minha vida, e quero cumprir esses deveres com alegria, por amor e com o coração disponível, gratuitamente.
Que Deus me ajude a ser cada vez menos fariseu, e cada vez mais cristão!