Vivemos na época da ditadura da comodidade. Tudo é válido e permitido desde que não tire a pessoa da zona de conforto em que ela se encontra “deitada eternamente em berço esplêndido”.
- Quantos filhos vamos ter? Um ou dois, mais que isso fica difícil demais. (Sem contar que tem gente que casa mas não quer filhos nunca. É incoerente, mas existe…)
- E como fazemos para evitar os filhos “extras”? Pílula, camisinha ou qualquer outra coisa que não seja muito complicada de fazer.
- Não me entendo com meu pai? Vou parar de falar com ele, aí ele sai do meu pé.
- Não gosto da minha sogra? Vou tratar mal, e não vou nem pisar na casa dela, uma hora ela se toca.
- Não gosto de fulano? Então vou tratá-lo mal. Aí ele se afasta e eu não preciso me esforçar para tratá-lo com educação na frente dos outros.
E as pessoas continuam agindo assim, fazendo questão de não enxergar que isso não resolve o problema de ninguém, e ainda aumenta o abismo que existe entre as pessoas. Mas agimos assim para não sair da nossa zona de conforto. Parece incoerente? É… É incoerente mesmo… Achamos que nos adaptar a esses “gaps” de relacionamento demanda menos esforço que construirmos pontes sobre eles. E vamos fazendo um esforço enorme para manter as aparências enquanto empurramos a vida com a barriga.
Creio que essa postura de escolher sempre o que dá menos trabalho é o motivo de termos tantas pessoas tão carentes e tantos relacionamentos fracassados. Importante frisar que aqui não falo em relacionamento somente no sentido de relacionamento conjugal, de relacionamento homem-mulher (seja casamento, namoro ou as variedades mais superficiais que existem), mas de relacionamento interpessoal em qualquer nível ou sentido que possa haver.
Claro que no caso de um casamento, a coisa fica ainda mais séria, porque as pessoas têm a vida toda para aprender a viver em família, e acabam por formar uma família com uma pessoa que conhecem há poucos anos. Mesmo que não haja alguma patologia no relacionamento familiar, essa situação não pode ser vencida somente com boa vontade, tem que ter muito amor envolvido.
Mas as pessoas entram em todo tipo de relacionamento sem a consciência de que não há a mínima possibilidade de um relacionamento de sucesso se a prioridade é manter a zona de conforto.
A prioridade no relacionamento é o outro. Seja na amizade, no casamento, na família, no trabalho ou nos estudos a prioridade tem que ser o outro. Mas ter o outro como prioridade manda minha zona de conforto para as cucuias. E isso faz um bem danado! Porque ninguém amadurece sem sair da zona de conforto. Se não saímos por vontade própria, vamos ser empurrados para fora dela pelos sofrimentos da vida, e vamos estar menos preparados para enfrentar esses sofrimentos.
Se todos tirassem o foco da prioridade do próprio umbigo, a coisa funcionaria bem. Como não agimos assim, todos sofremos as conseqüências. Uns mais, outros menos. Só falta mesmo acordarmos para isso, para vivermos melhor conosco mesmos e, mais importante, com os outros.
Texto publicado no Tau Francisco em 05/06/2009.