Quando você crescer
Uma carta muito bonita que uma mãe escreveu para sua filha. Encontrei aqui.
Quando você crescer – Carta para Emília
Ainda grávida, depois de saber que era você que eu estava esperando, via crianças na rua e pensava em você. Via as menininhas de pouco mais de um ano, com o andar desajeitado, e imaginava você nessa fase. Via crianças um pouco maiores, brincando nos parquinhos, andando de bicicleta, e pensava em você. Mas não eram só as crianças que me faziam imaginar como você seria. Quando via meninas de doze, treze anos, ou até adolescentes andando pela rua de mãos dadas, tênis, shortinho, conversando bastante, pensava em você também.
Esta carta, Emília, é para quando você estiver nessa fase linda e difícil.
Parece que faz pouco tempo que era eu, caminhando na rua à tarde num dia de semana, indo para a casa de alguma amiga. Depois que a infância acaba, o tempo começa a correr de outro jeito. Quando a gente é criança, dá pra se sentir meio Peter Pan. Parece que aquilo nunca vai acabar. A gente não “está” criança. A gente “é” criança, assim como a gente é mulher e vai sempre ser assim.
Quando escrevo este texto, você está ao meu lado, dormindo no seu carrinho, só de fralda porque faz calor. Você ainda é carequinha, não usa brincos, mas já tem um jeitinho delicado de menina.
Desde que você foi concebida, sempre pensei na sua vida como um todo. Desde agora, quando você ainda é um bebezinho, até os 90 ou 100 anos que você vai viver, quando eu já não estarei aqui para te acompanhar. Logo você vai engatinhar, e depois andar. E no próximo ano certamente vou ouvir suas primeiras palavras. E vamos fazer todas aquelas coisas que os pais sonham em fazer com os filhos: passear no parque, ir à praia, ir ao teatro, ir ao clube.
Mas, quando eu menos esperar, tudo isso terá acabado e você será uma mulher. Antes que isso aconteça, você vai passar por uma fase de transformação. Aí vão surgir as dúvidas sobre quem você é. Você vai começar a buscar sua própria identidade, que não será nada que eu ou seu pai criamos para você, nem nada que as outras pessoas possam te oferecer. Vai ser algo que você vai descobrir sozinha e que vai te separar definitivamente de nós.
Não te gerei pra mim. Te gerei para que você siga seu próprio caminho. Durante alguns anos da sua vida, te conduzirei. Mas haverá um momento em que você vai soltar a minha mão e vai tomar a mão de outro, que vai andar ao seu lado.
Nesses últimos dias, você com dois meses de vida, me separei de você por algumas horas. Eu estava ali, na academia de ginástica na frente de casa. Dá pra ver da nossa varanda. Mas eu estava sozinha, pela primeira vez em quase um ano, sem barriga e sem você. Eu era uma pessoa como qualquer outra, que não chama a atenção. E você ficou em casa, com seu pai, e nem deu pela minha falta.
Não vou mentir dizendo que foi terrível. Não foi. Foi bom, na verdade. Suei, como não suava há 11 meses, e voltei pra casa renovada. Olhei pra você, e achei você ainda mais parecida com seu pai. Tomei banho e fui cuidar de você.
Ficar longe de você durante uma hora, a poucos metros de distância, é apenas um pequeno exercício para o que um dia será inevitável.
Depois que você nasceu, eu deixei de ser a pessoa mais importante do mundo para mim mesma. Sempre cuidei de mim, e só de mim. As pessoas que amo, seus avós, seus tios, seu pai, não dependem de mim. Já você, minha pequena, não sobrevive sozinha. Eu sou inclusive seu alimento. E agora é você antes de qualquer coisa. É você antes de mim. Interrompo a minha refeição pra te dar a sua. Interrompo o meu sono pra garantir o seu. Sinto dor nos braços pra te acalentar quando a dor é sua.
Você não vai se lembrar desses dias, assim como eu não me lembro de quando sua avó me ninava nos braços e cantava para mim. Mas esse amor vai ficar gravado pra sempre no seu coração, em algum lugar bem fundo que a nossa memória não consegue alcançar, da mesma forma que o amor da minha mãe por mim ficou marcado.
Hoje você sorri pra mim, vem pros meus braços sem reclamar e vai aonde eu te levo. Você jamais fica com raiva de mim ou triste comigo. É fácil. Mas, mesmo eu me dedicando inteiramente a você, você ainda não tem a capacidade de me amar de verdade, desse amor que às vezes fica mesmo bravo com o outro. Desse amor que vai durar mesmo quando a gente se desentender, mesmo quando eu te disser “não”. Mesmo quando a gente estiver longe, muito mais longe que a academia da esquina.
É maravilhoso ter você assim, pequenininha, e ver seu desenvolvimento. Mas não quero lamentar seu crescimento, como se estivéssemos perdendo alguma coisa.
Ultimamente tenho pensado muito em você. Você não vai ser sempre esse bebezinho dócil, e um dia vamos brigar. Mas, e daí? Amo você agora, esperando pelo dia em que você vai poder me amar de volta, espontaneamente.
Amor de mãe…Perfeito como o amor de Deus!
Beijos