Imoralidade existe? Ou “Uma ova que eu sou Charlie!”

Na esteira do assassinato dos cartunistas da revista francesa Charlie Hebdo, muitas opiniões surgiram, sobretudo nas redes sociais, onde o movimento “Je suis Charlie” teve alguma força.

Antes de qualquer coisa, eu preciso dizer:

Je ne suis pas Charlie! Pas du tout!

Ou, em bom português “Uma ova que eu sou Charlie!”. Não que eu simpatize com os assassinatos, longe disso! Não obstante o “trabalho” da revista ser realmente desrespeitoso, esse erro empalidece diante do crime de assassinato. É uma reação tão brutal e desproporcionada que perde a razão. Não é possível justificar ou simpatizar com o crime. Não é possível ficar impassível com a perda de vidas dessas pessoas. Penso em suas famílias e amigos e sinto compaixão. Sofro junto por suas mortes.

Mas acontece que eu não sou cego. A revista não fazia um trabalho artístico ou humorístico, mas um trabalho de ridicularização sistemática de qualquer religião, de forma agressiva e ofensiva. Não vou postar imagens aqui porque não tenho estômago para tanto, mas descrevê-las já dará ao leitor uma idéia, e nem precisarei descrevê-las em detalhes.

Entrei no Google Imagens e digitei o nome da revista, de cara vi imagens envolvendo bispos e sodomia, a Santíssima Trindade (Deus tenha misericórdia!) também com sodomia, Papa Francisco com biquíni de passista de carnaval dizendo que faz tudo para agradar a clientela, Bento XVI (por ocasião de sua renúncia) agarrado a um militar da guarda suíça dizendo “enfim livre” (sugestão de homossexualidade). Mas não é só com os católicos, há uma imagem de um árabe nu, de quatro, com o ânus virado para o leitor, e em lugar do ânus uma estrela, com os dizeres “Maomé: nasce uma estrela”.

Isso por acaso é humor? Isso por acaso é liberdade de expressão? Por quê pode-se fazer esse tipo de avacalhação com as religiões sob o pretexto da liberdade de expressão e não se pode fazer, por exemplo, com negros ou mulheres? Simples, pode porque a moral é relativa. E se a moral é relativa usam-se dois pesos e duas medidas livremente.

Para mim, católico, a moral não é relativa. Vejo esse tipo de imagem e sinto o mesmo nojo que sentiria se esse tipo de ataque fosse direcionado às mulheres, aos negros ou aos homossexuais, porque é um ataque à sua dignidade. Mas para quem não tem uma moral bem definida, atacar as religiões é “liberdade de expressão”, e atacar as “minorias” é “opressão”. O problema não é o ataque, no fim das contas, mas seu alvo.

No entanto, se a moral forsse realmente relativa, não faria sentido condenar qualquer atitude que seja. Afinal, os limites também seriam realtivos, todos eles. E é justamente esse limite “elástico” que faz com que essas pessoas condenem algumas coisas e aceitem outras como “liberdade”. Isso é inaceitável!

O errado continua errado independente de quantas pessoas “achem” errado, porque a moral não depende da pessoa. A moral precisa, necessariamente, ser ao mesmo tempo externa e superior ao ser humano, senão ela vira escrava da vontade. Se a moral depende da pessoa, o criminoso está exercendo sua liberdade, e nem mesmo a liberdade da vítima de continuar sua vida em paz, sem o ataque à sua dignidade, pode ser invocada como valor absoluto. É o caminho do caos!

As consequências de uma moral relativa podem ser vistas na Holanda, por exemplo. Um país famoso por sua postura “liberal” e “tolerante” é o berço de uma associação de pedófilos, que exercem sua “liberdade” de disseminar seu “estilo de vida” como se fosse normal.

Bem, a moral não é relativa e não pode ser negociada ou flexibilizada. Isso é um peso mesmo para mim, que penso dessa forma, porque eu não consigo viver à altura do alto padrão moral que defendo, ainda que o persiga. Mas isso não é um problema da moral, e sim da minha imperfeição e incompletude. A impressão que eu tenho é que as pessoas também não conseguem viver à altura daquilo que deveriam defender, e em vez de esforçar-se mais e tentar vencer a si mesmos, preferem flexibilizar aquilo que não pode ser flexibilizado.

Kefir – minha experiência

O kefir é basicamente uma colônia de bactérias, mas tem mais coisas…

 

“O grão de Kefir é um agrupamento gelatinoso polissacarídeo que tem vários microorganismos em simbiose, e sua complexidade ainda não foi completamente decifrada pela ciência.
Basicamente o Kefir contém: 8 leveduras, 2 bactérias acéticas, cerca de 16 lactobacilos, cerca de 9 streptococci/lactococci, ácido fólico, ácido pantotênico, biotina(vitamina B), cálcio, carboidratos, fósforo, gordura, lactase, magnésio, niacina (vitamina B3), potássio, proteínas, pyridoxina (vitamina B6), triptofano, vários outros aminoácidos benéficos, vitamina B12, vitamina K.” (fonte)

 

“Kefir ou quefir é uma colônia de microrganismos simbióticos imersa em uma matriz composta de polissacarídeos e proteínas. Originário do Cáucaso é formado por lactobacilos e leveduras aptos a fermentar diversos substratos – sendo o leite (caprino ou bovino), historicamente, o mais comum deles.

O metabolismo da colônia de microorganismos consome a lactose e reduz a caseína, albumina e outras proteínas aos aminoácidos que as constituem, além de sintetizar ácido láctico, a lactase e outras enzimas que ajudam a digerir a lactose restante depois da bebida ingerida. Ainda modificam os sais de cálcio para formas mais facilmente absorvidas pelo organismo humano.”(fonte)

 

O que o kefir faz é se alimentar dos açúcares do leite e fermentá-lo, aí você obtém uma espécie de iogurte, que pode ser mais ou menos ácido, conforme o que você pretende fazer. Quem me deu a minha colônia, “os grãos de kefir”, foi o amigo Paulo Rocha, e desde então eu já dei um pouco dessa colônia para 4 pessoas.

Há várias formas de se consumir o kefir, como iogurte, como cream cheese, como leite mesmo (é um pouco mais viscoso e é mais ácido, mas pode-se consumir assim também). Uma amiga inclusive fez um frozen batendo o kefir com morangos e congelando. E os benefícios são muitos, de regular o intestino a permitir o consumo por pessoas intolerantes à lactose, já que os microorganismos não apenas consomem um pouco da lactose como produzem lactase, a enzima que “falta” a essas pessoas.

Lá em casa, costumamos consumir mais como cream cheese, então segue um passo-a-passo com fotos, para ajudar quem quiser fazer também. Esse passo-a-passo foi publicado em um fórum de que faço parte, o Ogros Fórum (o nome é meio que autoexplicativo…), e agora publico aqui com umas poucas alterações no texto.

 

Até a próxima! 😉

 

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Produção do cream cheese de kefir – passo-a-passo

Coloquei o leite (1L) e a colônia numa jarra e deixei quase 24 horas. Eu sempre deixo tempo a mais porque faço com tempo também, para não precisar contar os minutos, mas com umas 12 horas já está pronto. Se você quiser um kefir mais suave, e menos ácido, pode deixar algo em torno de 6 a 8 horas. Seja como for, dependendo do tamanho da colônia e das temperaturas do leite e do ambiente esses tempos podem variar.

o leite, já talhado pelos bichinhos
o leite, já talhado pelos bichinhos

 

depois de misturar com a colher (dá para ver uns grumos da colônia)
depois de misturar com a colher (dá para ver uns grumos da colônia)

Passei tudo numa peneira, para capturar a colônia de novo, e coloquei os bichinhos dentro de uma vasilha de vidro, com 15 cm de largura na boca da vasilha, e uns 10 de altura, com um pouco do leite já fermentado e deixei na geladeira.

a colônia com um pouco do kefir
a colônia com um pouco do kefir

 

Já li e ouvi relatos de pessoas que deixaram suas colônias na geladeira e as colônias morreram, mas a minha já ficou 15 dias na geladeira sem eu mexer e continua firme e forte, e crescendo. Talvez porque eu tenho o cuidado de deixar a colônia sempre no leite, mas não posso garantir resultados aqui. O mais seguro é ir renovando esse leite toda semana, e mesmo que eu não faça isso, prefiro sugerir a forma “mais correta” de manter a colônia.

um litro de leite rendeu 900 mL de kefir, porque um pouco do kefir ficou na vasilha com a colônia
um litro de leite rendeu 900 mL de kefir, porque um pouco do kefir ficou na vasilha com a colônia

 

Agora é só coar no filtro de papel ou num pano muito fino (e muito limpo, ou nem tão limpo assim, vai do gosto do freguês ). Eu uso filtro de papel. No meu coador não dá para colocar tudo de uma vez, então coloco uma parte, espero, e coloco o resto.

 

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Quando você coloca no coador, o soro (que se chama kefiraride) começa a, literalmente, escorrer. Demora mais ou menos um minuto para diminuir o fluxo e começar a pingar.

uns 30 segundos depois que eu coloquei no coador já tinha escorrido quase 100 mL de soro/kefiraride
uns 30 segundos depois que eu coloquei no coador já tinha escorrido quase 100 mL de soro/kefiraride

Uns 30 minutos depois (com quase 300 mL de kefiraride já separados) coloquei o restante do kefir no coador e deixei na geladeira a noite toda. Como eu disse, não tenho pressa.

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No dia seguinte, o kefir tinha praticamente virado uma massa, e o kefiraride já passava dos 600 mL.

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Depois disso, foi só temperar o cream cheese. Eu coloco um pouco de açúcar, pois o kefir é bem ácido e o açúcar “quebra” essa acidez. Além disso. Coloco azeite e sal. Nesse caso, como a massa ficou muito seca, eu coloquei ainda um pouco do kefiraride, para ficar com a consistência mais legal. Mesmo assim, ele gelado ficou com consistência daquele cream cheese Filadélfia, só que muito mais gostoso.

 

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cream cheese quase pronto

 

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temperando com açúcar, azeite e sal

 

pronto! \o/
pronto! \o/

 

huuuuuummmmmmmmmm
huuuuuummmmmmmmmm

Se você quiser, pode deixar menos tempo no coador, ou readicionar o kefiraride, conforme o caso, para deixar com consistência de iogurte normal ou mesmo do iogurte grego.

 

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Sobre costumes, muros e Gabriela…

Sexta-feira passada, dia 12, eu ouvi o episódio 432 do Café Brasil, chamado “Descendo do Muro”. Luciano Pires, o apresentador e diretor do programa, fala da virtude da integridade, explicando que se trata de “cultivar, respeitar e seguir seus valores. Sem negociação.”

Antes de continuar, uma explicação: não é necessário ouvir o programa para entender meu texto, mas eu recomendo vivamente que escutem não somente este, mas todos os episódios! Luciano se expressa com uma clareza excelente e dá uns bons (e necessários) cutucões no nosso “célebro”. 😉

Eu fiquei muito pensativo após ouvir o programa porque, apesar de tentar cultivar essa virtude, muitas vezes me vi em situações em que não me manifestei com a devida coerência com os meus valores, seja por preguiça, medo, ansiedade ou mesmo para não desagradar alguém. Mas teve uma outra coisa, que eu gostaria de comentar aqui…

Luciano chama a integridade de virtude, e eu, como católico, não pude deixar de pensar no conceito católico de virtude e vício. As virtudes e os vícios, ensina a Igreja Católica, são bons e maus costumes, respectivamente. Essa perspectiva coloca as coisas num patamar eminentemente humano, ou seja, em seu devido lugar. Se virtudes e vícios são costumes, não são algo com que nascemos e que fazemos automaticamente, nem algo que nunca faremos ou conseguiremos, são coisas que podem ser cultivadas, refinadas, melhoradas, ou mesmo deixadas de lado. E essa visão é imensamente libertadora!

A libertação se dá anulando a perigosíssima “síndrome de Gabriela” (eu não sei onde ouvi o termo, mas acho fantástico!). É aquela coisa: “eu nasci assim, eu cresci assim, e sou mesmo assim, vou ser sempre assim…” Quantas pessoas você conhece que fazem isso? Deixam de adotar bons hábitos (virtudes) ou abandonar maus hábitos (vícios) usando como desculpa que “não são assim”. Quantas vezes você mesmo não faz isso? Mas não é verdade que “somos assim” e não mudamos. Somos seres humanos, imperfeitos e limitados ao tempo. Enquanto nossa temporalidade é garantia de mudança contínua, nossa imperfeição nos permite evoluir sempre mais.

[pausa para divagar]
Claro que há um limite para essa evolução, mas pessoalmente acredito que esse limite ainda não foi atingido. Provavelmente ele foi atingido por Jesus, mas Jesus é um ponto fora da curva, para dizer o mínimo.
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Então não podemos ficar estagnados para sempre. Podemos e devemos buscar melhorar cada vez mais. Somos capazes! Se seu vício maior é a gula, seja mais comedido ao comer, e faça um jejum semanal para ensinar seu corpo e sua mente que eles não precisam de tanta comida ou bebida. Se seu vício é a avareza, faça caridade, e mesmo que não consiga se desfazer de seus bens materiais, vá distribuir sopa para os pobres! Já é um começo…

Esse é o segredo! Uma virtude precisa ser exercitada sempre, seja para conseguir que essa virtude se contraponha a um vício, seja para não perdê-la. E novas virtudes sempre podem ser aprendidas, mas cabe um alerta: Sem a temperança (o equilíbrio), disse Chesterton, as virtudes ficam loucas. Fazer caridade é louvável, mas fazer caridade sem temperança pode ser doar o que não lhe pertence ou mesmo negligenciar sua família para visitar os doentes de um hospital. Percebem?

Para finalizar, imitando descaradamente o Luciano Pires, uma frase cuja autoria desconheço, mas que tem tudo a ver com essa conversa de bons e maus hábitos, virtudes, vícios e capacidade de mudança: “Não há santo sem passado, nem pecador sem futuro”.

O Dia da Consciência Limpa

20 de novembro é o dia da consciência negra no Brasil. A data foi escolhida para homenagear Zumbi, famoso líder do quilombo dos Palmares.

Eu poderia usar este espaço para comentar como Zumbi causou a derrocada do quilombo que chefiava. Ou então talvez fosse pertinente comentar que ele mantinha negros como escravos dentro do quilombo. Falando em Zumbi, quilombos e escravidão, pensei se seria bom ir mais longe e dizer que eram os próprios africanos, negros, que vendiam seus inimigos capturados como escravos, ou que os negros alforriados às vezes tinham escravos, e houve mesmo um que se tornou mercador de escravos. Talvez eu até comentasse que havia escravocratas que louvavam a influência dos negros na cultura brasileira.

Ou então eu poderia fazer uma reflexão sobre como a Escola de Frankfurt influenciou o pensamento atual, usando grupos para implantar um discurso vitimista e assim tentar virar a sociedade de ponta-cabeça com o tal do “politicamente correto”, e mostrar a imoralidade e incoerência de suas obras e conceitos.

Mas é melhor deixar essas informações assim, na superficialidade, e permitir que o leitor busque se aprofundar na História. Além disso, essa coisa de Filosofia, Sociologia, História, estudo, tudo isso pode ser muito chato! Então, em vez de cobrir o leitor com conceitos, vou contar uma história…

Nos Jogos Olímpicos de 1936, na Alemanha, uma amizade se formou entre dois atletas, um alemão e um americano. O americano quase foi desclassificado no salto em distância e o alemão o ajudou. No fim das contas, o americano venceu a prova, o seu amigo ficou com a prata.

Anos depois, o alemão, convocado para a guerra, escreve ao americano:

Meu coração me diz que talvez esta seja a última carta da minha vida. Se for assim, eu te peço uma coisa. Quando a guerra acabar, por favor vá à Alemanha, encontre meu filho e diga a ele sobre seu pai. Diga-lhe do tempo quando a guerra não nos separava e diga-lhe que as coisas podem ser diferentes entre os homens neste mundo.

Seu irmão, Luz.

Os atletas eram o alemão Carl Ludwig Luz Long e o americano Jesse Owens, que era negro. Após a cerimônia de entrega das medalhas, Long saudou Owens e os dois deixaram o estádio abraçados, conversando amigavelmente diante de Hitler e do mundo inteiro. Dessa amizade fica a lição de que a cor da pele é desimportante, pois em nada interfere na capacidade e muito menos na dignidade da pessoa.

Jesse Owens saudando a bandeira americana e Carl Long fazendo a saudação nazista, apesar de ser de oposição ao governo de Hitler.
Jesse Owens saudando a bandeira americana e Carl Long fazendo a saudação nazista, apesar de ser de oposição ao governo de Hitler.

Chesterton (1906) escreve que ”a maneira verdadeira de superar o mal das distinções de classe não é denunciá-las como os revolucionários as denunciam, mas ignorá-las como as crianças as ignoram”, ou seja, reconhecer a obviedade de que as diferenças não importam, importa é que trabalhemos juntos por um mundo melhor.

Que neste 20 de novembro comemoremos a nossa disposição de reconhecer-nos humanos, e em vez de estacionarmos nos erros do passado, que não podemos corrigir nem compensar, olhemos para o futuro que queremos construir.

 

PS: A inspiração veio daqui. Contei a mesma história e usei a mesma citação de Chesterton,

A (i)lógica da Ideologia de Gênero

Hoje em dia, fala-se em diversidade como algo positivo e até desejado. Ok, sem qualquer problema até aqui. Os problemas começam quando a diversidade deixa de ser apenas apresentada pela realidade e passa a ser uma realidade enfiada goela abaixo, e isso acontece com certa frequência e sem que necessariamente percebamos. Apresenta-se uma opinião (ou uma ideologia) como conceito, como axioma. Não há provas, não há racionalização, não há argumentação, a idéia é jogada na cara das pessoas e quem discordar é preconceituoso.

Um exemplo dessa coisa de lançar a idéia ao léo é a questão da identidade de gênero, que hoje se limita à aceitação daquilo que a pessoa sente. Simples assim. E os padrôes masculino/feminino são imposições da sociedade que a pessoa não precisa aceitar, antes é a sociedade que deve aceitar e adaptar-se ao que a pessoa sente. Se antes tratava-se de respeitar a subjetividade, agora a subjetividade manda na realidade, afinal, se eu me sinto, então eu sou.

Veja que antes dessa “descoberta brilhante”, nós nos adaptávamos ao que éramos, e isso era perfeitamente normal e aceitável, agora o que somos é o que sentimos ser, e se esse sentimento mudar, o que somos muda junto! Toda uma realidade do ser, íntima, profunda, complexa, muda com o “sentimento” da pessoa. Qual piuma al vento, o ser torna-se outro ser, com toda sua complexidade assumindo outra forma. Assim, o relativo toma ares de absoluto, pois não há padrão nenhum. E se não há padrão, não há nada a ser relativizado, e cada “sentimento” desse vira o absoluto de si mesmo.

Vale a reflexão daquilo que disse Chesterton: “Se a verdade é relativa, é relativa em relação a quê?”

 

E se essa reflexão sozinha não lhe mostrar o absurdo, vamos usar essa mesma idelogia para analisar uma situação hipotética.

João nasceu masculino, esse é seu sexo.

Se João se sente mulher, então esse é seu gênero. E ela tem direito de usar o banheiro feminino, afinal ela é mulher.

João-se-sentindo-mulher não quer usar roupas femininas, mas prefere roupas masculinas, então ela é uma mulher travesti.

João-se-sentindo-mulher não quer ter aparelho sexual feminino, mas prefere manter o pênis com o qual nasceu, então ela é uma mulher transsexual.

João-se-sentindo-mulher não sente atração por homens, mas por mulheres, então ela é uma mulher transsexual lésbica.

 

Percebem a confusão? Esse João fictício, que até então era um homem heterossexual, de repente virou uma mulher transsexual lésbica! Não houve qualquer mudança de comportamento, não houve quebra de paradigma, tudo mudou apenas porque a pessoa se sentiu assim. É a ditadura do sentimento, que submete até mesmo a realidade ao seu poder incomensurável.

 

Oh, céus! Oh, vida!

Da coluna de ontem do Carlos Brickman no Observatório da Imprensa.

 

Oh, céus! Oh, vida!

Lição de vida: eleição não é tudo (tudo é falta de eleição). Ideologia não é tudo (tudo é guerra por ideologia). Pessoas inteligentes ficam burras quando deixam sentimentos competitivos adequados a esportes aflorar em situações em que deveriam refletir. Perder eleições, ou ganhá-las, faz parte do jogo. Lamenta-se, comemora-se, mas nem ganhar nem perder valem as brigas a que este colunista está assistindo.

Dez mil anos atrás, quando a comunicação era muito deficiente, os ótimos repórteres Ennio Pesce e Ferreira Netto, ambos excelentes imitadores, ambos muito bem humorados, gravaram na fita de seu Geloso um esplêndido diálogo entre Jânio Quadros e Adhemar de Barros, os dois maiores inimigos da política paulista. Os dois batiam um papo amigável e combinavam como seria o próximo comício. Ferreira, como Adhemar, dizia que iria sugerir que o mato-grossense Jânio voltasse para sua terra, em vez de assombrar o povo paulista. Ennio, como Jânio, dizia: “Chamá-lo-ei de rato, que rói o dinheiro do povo”. Nas viagens, levavam o gravador e o ligavam em restaurantes e bares. Os eleitores de Jânio e Adhemar ficavam indignados: brigavam por eles e acabavam de descobrir que ambos, longe do público, não apenas eram amigos como combinavam os insultos. E alguns, contava Ennio Pesce, até se convenciam de que, embora continuassem votando em seu favorito, não precisavam ter ódio dos adversários.

Será que é preciso fazer algo semelhante para que pessoas normalmente centradas, habitualmente educadas, tolerantes, deixem de comportar-se como feras feridas sempre que se fala qualquer coisa de seus preferidos? Ou usem critérios ideológicos para tudo – por exemplo, para negar que o poeta Ferreira Gullar mereça estar na Academia Brasileira de Letras, por atrever-se a criticar a reeleição de Dilma? Pior: há jornalistas que, na defesa de suas teses xiitas, defendem a demissão de colegas, o fechamento de postos de trabalho, o boicote ao trabalho daqueles que eram seus amigos até há poucos meses. Vale a pena passear pelo Facebook, escolher alguns xiitas mais bravos, e cutucá-los de alguma maneira – mensalão, no caso dos petistas, é ótimo; a lembrança de alguns casos iniciados no governo Covas, em São Paulo, como o cartel do metrô e dos trens metropolitanos, sempre funciona. E falar do caso Celso Daniel, então? É acender o fogo, sair de perto e fazer o trabalho do dia. E assistir ao rescaldo do incêndio na hora em que o trabalho estiver concluído e der para se divertir mais um pouco.

Parece ridículo. E é.

Eleições 2014 – Parte V e final – Fabão vota em quem?

Resumidamente, meus votos no 1º turno foram assim:
Presidente – Aécio Neves – Foi para o 2º turno
Governador – Pitiman – Perdeu. Votei sabendo disso, já que o 2º turno meio que estava definido.
Deputado Federal – Paulo Fernando – Perdeu. Eu sabia de suas poucas chances, mas ao menos o deputado eleito do partido foi o Izalci, e não a Abadia.
Senador – Reguffe – Eleito
Deputado Distrital – Adolfo Sachsida – Perdeu. Outro com poucas chances.

Nestes tempos de eleições os ânimos ficam exaltados e qualquer manifestação é levada para o pessoal, exagerada, gera ofensas e desavenças. O que acontece é que as pessoas “se deixam levar por emoção ou por uma preferência subjetiva”, como eu disse antes. Então se o cara diz que vota no Aécio, já tem uns 17 idiotas dizendo que ele não gosta dos pobres, que ele é coxinha, que ele cheira cocaína e outras sandices mais. Cadê os argumentos? O gato comeu.

Ora, se eu votei no Aécio foi por achar que ele era a opção menos ruim, não necessariamente por gostar dele ou por compactuar com sua história política ou seu plano de governo. Mas entre uma Dilma e uma Marina, meu voto foi para o Aécio, consciente de que aquilo era o melhor para o meu país. Ou melhor, o menos ruim para o meu país. Dos males, o menor. E isso muita gente não entende, ou porque não pensa ou porque está tão comprometida com outros interesses que faz questão de não enxergar. Não, o Aécio não é o meu candidato, mas se tornou a minha opção diante do que havia disponível.

Como disse o Luciano Pires:

“De qualquer forma, não deixa de ser triste a percepção de que no domingo irei às urnas para votar contra. Contra o atraso, contra a desonestidade, contra os que, por conveniência, nunca sabem de nada, contra os que se pretendem donos da verdade, contra os que acham que têm o monopólio da ética, contra os que mentem descaradamente, contra os que tratam bandidos como heróis. Contra os que pensam apenas em si e na manutenção do poder.

Mas essa tristeza é menor que a alegria da certeza de que votarei a favor do Brasil.”

Enfim, eu também achei que o melhor para o Brasil era tirar a porcaria que ficou instalada no Planalto por 12 anos graças ao bolsa-cabresto bolsa-família, mandando e desmandando, aparelhando e inchando o Estado para beneficiar o partido, enfim. Preferi o que considerei o mal menor e resolvi que era hora de tirar o bode da sala e mandá-lo para fora.

Para o segundo turno, Aécio e Rollemberg. E como bem lembrou a sra. Fabão na Contramão, vou cobrar os meus candidatos eleitos e os demais eleitos de todos os partidos, vou acompanhar seus atos e escrever para eles, vou viver a política, enfim.

Eleições 2014 – Parte IV – Qual a relevância do presidente, afinal?

Muito tem se falado e discutido sobre os candidatos a presidente da República. Em toda eleição isso se repete, afinal, o presidente é o chefe do Poder Executivo, o chefe de Governo e de Estado. Nestes tempos de discursos inflamados e ideologias à flor da pele, temos uma série de manifestações a favor ou contra este ou aquele candidato, nem sempre acompanhadas de uma argumentação consistente que dê alguma “sustância” a essas manifestações.

Mas qual é a importância desse voto, no fim das contas? Se todo mundo é parecido, faz tanta diferença assim ter um presidente deste ou daquele partido? Faz, sim, e muita!

Temos um sistema de três poderes, o Executivo, o Legislativo e o Judiciário. Esses poderes são independentes um do outro mas podem fiscalizar um ao outro ou colocar limites um no outro, por meio do chamado “sistema de pesos e contrapesos”. Exemplificando, se o Legislativo propõe uma lei, o Executivo pode impedir que essa lei “saia”, que ela seja promulgada, por meio do veto do presidente. Isso mesmo: Todas as leis que o Congresso quer promulgar são submetidas à aprovação (sanção) da Presidência, e caso haja veto, o Congresso avalia se mantém ou derruba o veto, afinal quem faz a lei é o Legislativo, e ele tem a última palavra. Ao STF (Judiciário), cabe analisar a constitucionalidade de uma lei, coisa que faz quando é acionado.

Há outros exemplos, mas vamos deixar a coisa o mais simples possível por aqui. Não tenho pretensão de ensinar direito constitucional a ninguém, pobre de mim… Mas há uma situação interessante, que acontece hoje no Brasil.

O presidente tem a prerrogativa de indicar os membros do Supremo Tribunal Federal, e o que o PT tem feito é aparelhar o STF, indicando pessoas que colocam os interesses do partido acima da constitucionalidade ou do conhecimento jurídico. Com o STF devidamente aparelhado, se o presidente governar com maioria no Congresso, ele faz virtualmente o que quiser. E é aí que o Brasil está atualmente.

Se o Legislativo e o Judiciário acompanham as diretrizes do Executivo – e aí não faz diferença se é por conta de aparelhamento, aliança partidária, identidade ideológica, mensalão, maracutaia ou o que seja –, o sistema de pesos e contrapesos vai para as cucuias, e o Executivo navega “com céu de brigadeiro”, fazendo o que quer e sem medo de punição.

Aí o petista acha que eu estou falando um absurdo, fala das prisões “injustas” do Dirceu e do Genoíno. E eu respondo que as prisões são mais que justas, o que é injusto é o Genoíno ser autorizado ao regime semi-aberto e depois à prisão domiciliar, injusto é Dirceu ter regalia na prisão, isso tudo enquanto o Roberto Jefferson pena para conseguir uma consulta no presídio e tem seu pedido de semi-aberto negado. (links: http://veja.abril.com.br/blog/radar-on-line/brasil/roberto-jefferson-podera-sair-da-cadeia-em-breve/ e http://www.alagoas24horas.com.br/conteudo/?vCod=208521)

Assim, pode-se argumentar que o mais importante não é o voto para presidente, mas para deputados e senadores. Pode até ser, mas os deputados e senadores não têm o peso simbólico que o presidente tem, como Chefe de Estado. O presidente, por assim dizer, é a “cara” do país.

Isto dito, é importante frisar que o voto para presidente precisa ser coerente com o voto para deputado federal e senador, se você quer que seu presidente consiga fazer alguma coisa. Não adianta gritar “Fora, Dilma” se você vota em deputado e senador do PT, e não adianta votar na Dilma e escolher senador e deputado do PSDB. Como disse o Yoda na parte II desta série de posts sobre as eleições: “Usar o cérebro para votar, você deve”.